Ao me ver falar de fábrica de delinquentes até imagino o que lhe vem à cabeça. Uma penitenciária, uma gangue, uma favela. Mas não. Quando se faz parte de uma gangue, já se é delinquente; na penitenciária, se praticou delinquência; e numa favela, a esmagadora maioria são pessoas de bem.
Você pode até não concordar comigo, mas, para mim, as grandes fábricas de delinquentes são aquelas instituições que deviam cuidar da boa formação das pessoas: a família, a escola e a religião.
Dia 7 de abril de 2011, 8 horas da manhã. O jovem de classe baixa Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, invade a Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, com duas armas de fogo matando mais de uma dezena de alunos, ferindo mais outra dezena e atirando contra a própria cabeça com a chegada da polícia.
Dia 20 de abril de 1997. Cinco jovens de classe média de Brasília ateiam fogo ao índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, de 45 anos, que dormia numa parada de ônibus após ter participado de uma manifestação por ocasião do Dia do Índio, morrendo logo depois.
Dia 31 de outubro de 2002. A jovem de classe alta Suzane Von Richthofen, juntamente com dois comparsas, premedita e executa o assassinato dos próprios pais enquanto dormiam.
Chocante, não é?
Coloquei esses três fatos para demonstrar que o delinquente está em todas as classes sociais e que as instituições que citei lá no segundo parágrafo erram em todas as camadas da sociedade. Pode ser de família abastarda ou menos favorecida, estudarem em escolas públicas ou privadas, terem ou não formação religiosa.
Presenciei alguns fatos que engrandecem o que estou dizendo.
O primeiro aconteceu em uma família carente de uma invasão que conheci através de um trabalho de voluntariado que participei. Uma mãe de três filhos, dos quais os mais novos estavam em casa enquanto o mais velho, de apenas 12 anos, já havia três dias que não aparecia em casa. Ao questionar a mãe, ela disse não saber do paradeiro e ainda dizia que era normal, que ele saía sempre, não sabia com quem, mas que não “tava nem aí” pra ele, “tinha mais com que se preocupar”. Hoje o menino tem 16 anos e encontra-se preso num centro de detenção para menores.
O segundo aconteceu numa escola de classe alta, de mensalidade exorbitante. Uma menina, de apenas cinco anos de idade estava brincando com as amiguinhas de boneca dizendo assim: “- a babá vem já neném. Chama a babá da sua amiguinha.” Na brincadeira, elas não são mães dos bebezinhos, são babás.Como na vida real. Então a mãe chega às 18h para pegá-la e ela começa a correr pela sala porque quer brincar mais. Depois de algumas tentativas, a mãe para impaciente e diz: - “Fulana, se você vier agora, a mamãe vai te dar banho hoje.” Ela largou a boneca e foi correndo com uma alegria imensa.
Tanto um como outro caso me chocaram.
As crianças pedem socorro silenciosamente em casa em busca de carinho, atenção, limites, não encontram. Na escola também não encontram e ainda sofrem bullying (ver artigo sobre o assunto no índice) e negligência por parte de professores e diretores. Quando mais jovens e sem saídas para tanta angústia, buscam a religião, que tantas vezes acabam transformando-os em radicais fanáticos, preconceituosos e alienados.
O que precisa ser entendido é que, quando uma pessoa vem ao mundo, a personalidade dela precisa ser formada, cuidada, aparada. Os vícios morais e tendências negativas precisam ser ponderadas, trabalhadas, podadas. A família precisa se estruturar e dar estrutura a esse ser que precisa de base afetiva e educacional. Deve ter limites definidos, horários, regramento. Precisa ser cuidadosamente construído.
Saber com quem os filhos saem, o que fazem, o que acessam na internet; porque é tímido demais, porque se isola, porque é agressivo, chorão, sensível, insensível, quais são seus valores e aspirações. Seu filho é responsabilidade sua. A obrigação de entregar à sociedade um indivíduo de bom caráter é sua, primeiramente. Pode ser que depois de todos os cuidados, seu filho até venha a ser um delinquente, mas é uma "fatalidade" com possibilidades infinitamente menores.
Já vimos que podemos transformar verdadeiros monstrinhos em crianças de verdade, como nos mostram esses programas de supernanny por aí.
Depois, a escola precisa ensinar valores éticos e não apenas fórmulas científicas. Precisa integrar e trabalhar espaços, limites e respeito. Precisa formar cidadãos e não apenas bacharéis.
A religião também tem um papel importante na sociedade. Boa ou ruim, ela tem tirado muitas pessoas de vidas infelizes e desregradas e feito cidadãos de bem. Mas quando não consegue fazer o seu papel de melhorar as pessoas, criam verdadeiros monstros que fazem atrocidades em nome de Deus.
Não é comum eu escrever esse tipo de texto. Ele é denso, baixo astral e talvez polêmico. Não gosto de trazer esse tipo de energia, mas achei importante falar sobre isso. Porque existe algo de que não podemos fugir. Da Lei de causa e efeito. Tudo que a gente faz com a nossa vida e com a vida do outro, que está sob nossa responsabilidade, teremos consequências. E as pessoas não estão preocupadas com isso. Se omitem achando que, mais tarde, poderão engabelar o curso natural da vida.
Desculpe a opacidade desse texto. Talvez tire logo. Talvez não. Quero acreditar que as pessoas não se fingem de cegas diante de coisas tão relevantes para suas próprias vidas.
Quero acreditar que o mundo é bem melhor do que vejo.
Quero terminar com a famosa frase de Pitágoras: “Educai as crianças e não será necessário punir os homens.”
E um texto, de autoria controversa, ensina em doze lições COMO CRIAR UM DELINQUENTE. Segue texto abaixo.
Jean Charlles
Comece na infância a dar ao seu filho tudo que ele quiser. Assim, quando crescer, ele acreditará que o mundo tem obrigação de lhe dar tudo o que deseje.
Quando ele disser palavrões, ache graça. Isso o fará considerar-se interessante.
Nunca lhe dê qualquer orientação espiritual. Espere até que ele chegue aos 21 anos, e "decida por si mesmo".
Apanhe tudo o que ele deixar jogado: livros, sapatos, roupas. Faça tudo para ele, para que aprenda a jogar sobre os outros toda a responsabilidade.
Discuta com frequência na presença dele. Assim não ficará muito chocado quando o lar se desfizer mais tarde.
Dê-lhe todo o dinheiro que ele quiser. Nunca o deixe ganhar seu próprio dinheiro. Por que ele terá que passar pelas mesmas dificuldades que você passou?
Satisfaça todos os seus desejos de comida, bebida e conforto. Negar pode acarretar frustrações prejudiciais.
Tome o partido dele contra vizinhos, professores, amigos. ( Afinal todos tem má vontade para com seu filhinho.)
Quando ele se meter em alguma encrenca séria, dê essa desculpa: "Nunca consegui dominá-lo."
Em ocasiões onde ele estiver reunido com amiguinhos ou com seus irmãos use e abuse das comparações que incitem disputa. Compare seu caráter, sua capacidade intelectual, e seus dotes estéticos; diga em alto e bom tom para que todos possam ouvir, ele inclusive, coisas do tipo: "Meu filho é mais inteligente que os outros, é mais bonito, é mais esperto, é um gênio."
Se tiver algum vício, demonstre-o em sua presença todos os dias. Assim ele vai achar tudo isto natural, e com certeza, mais tarde, vai ouvir suas repreensões sobre os males que estas imperfeições podem trazer.
Quando ele fizer algo errado, ameace-o, faça uma cara triste para simular que você ficou chateada. Dessa forma, ele aprenderá como obter o que deseja valendo-se de chantagem emocional.
E prepare-se para um destino de decepções.